quarta-feira, 17 de junho de 2015

Da ilustração a visualidade no livro infantil

No primeiro post falamos, de maneira geral, sobre a visualidade na poesia e também na capacidade inata da poesia ao hibridismo visto que carrega em sua própria forma capacidades visuais, sonoras e estéticas ( Segundo Enza Paund fanopéia, melopeia e logopéia).
A ideia desse segundo post é compreender como historicamente a relação não só da palavra escrita como traço fisicalidade plástica se desenvolveram no livro, mas principalmente como a sua relação com a ilustração que foi se tornando cada vez mais profunda gerando, nas últimas décadas, um intenso experimentalismo por parte dos escritores.
 Influenciados pelos conceitos sobre a função da literatura infantil que se surgiu como moralizante no século XVIII as primeiras ilustrações eram de natureza descritiva e reforçavam as imagens do texto escrito.
Segundo o artigo “Revelações que a escrita não faz: a ilustração do livro infantil” de Ana Paulo Bernardes Abreu publicado na revista “Baleia na Rede” a ilustração de livros infantis começou a ganhar corpo depois da publicação dos contos de fadas (1697) de Perraut, na França, feitas por Gustave Doré. Interessante notar, que o próprio conceito de infância também nasce nesse período, assim podemos dizer que o próprio conceito de literatura infantil carrega desde o princípio uma relação estreita entre a palavra escrita e a ilustração.



Influenciados por Perraut vários escritores começaram a publicar seus livros com ilustrações como os Irmãos Grimm, na Inglaterra. Já no começo do século XIX o conceito de ilustração começa a se expandir com os pop-up e seus desenhos tridimensionais, até que inicio do século XX muitos novos ilustradores ganharam espaço fazendo inclusive reedições dos contos de fadas clássicos como Arthur Rackham. 



É nessa época também que no Brasil começam a sair a primeiras publicações infantis em português brasileiro, visto que antes a literatura infantil era importada de traduções portuguesas ou diretamente da França ou da Inglaterra:
Quando finalmente os fundadores de uma literatura infantil brasileira começaram a traduzir ou a escrever numa linguagem a que chamamos “português brasileiro” nos anos finais do século XIX e início do século XX, os livros tiveram esse tipo de ilustrações feitas por artistas como Calixto Cordeiro, Henrique Cavalleiro e Julião Machado, o mais presente nos livros de Figueiredo Pimentel, um dos fundadores.
Em 1905 é lançado um periódico brasileiro para crianças chamado o tico-tico que inspirado em no periódico françês La Semaine de Suzette, destinado às meninas dos 8 aos 14 anos, tinha o objetivo, segundo Laura Sandroni de “encantar e distrair” as crianças, publicando contos, poesias e principalmente histórias em quadrinhos cujos personagens inspirados em figuras bem nossas, viviam divertidas aventuras e seus 10 mil exemplares iniciais esgotavam-se rapidamente.



Depois desse periódico, outros autores entre eles Monteiro Lobato valorizavam a capacidade da ilustração, não só no sentido narrativo com o objetivo de alcançar também um público não letrado, visto que a ilustração não passa pela barreira da alfabetização, mas também já trabalhando a visualidade da palavra, como nota nesse trecho de sua dissertação José Augusto de A. Nascimento.
Para ter um exemplo dessa visualidade em monteiro lobato visitar:
  /"(...) As formigas, muito contentes, continuaram o serviço e levaram para o fundo da cova o cadáver da vespa. Em seguida apareceu uma trazendo um letreiro assim, que fincou num montinho de terra: 

                                        “AQUI NESTE BURACO JAZ UMA POBRE
                                     VESPA ASSASSINADA NA FLOR DOS ANOS
                                        PELA MENINA DO NARIZ ARREBITADO. 
                                                          ORAI POR ELA!”(...)
Para ler o livro todo clique em:


Importante ressaltar que nas obras de Monteiro Lobado já começam a saltar aos olhos uma nova mudança no conceito de criança, mas que ele ainda privilegiava a linguagem verbal apesar de algumas inovações.
Como um dos precursores desse novo conceito de criança, onde a criança passa a ser um ser pensante , Lobato influenciou muitos escritores contemporâneos. Com esse novo entendimento os livros infantis também se desenvolveram culminando em livros que possuem uma capacidade poética e de experimentalismo narrativo, mesmo sem fazer uso da linguagem escrita, como por exemplos o livro Cântico dos Cânticos da escritora e ilustradora  Ângela Lago e os poemas visuais de Sérgio Caparelli, como vimos no primeiro post. esses escritores que fazem parte de um Boom da literatura infantil no Brasil como nomeia Nely Novaes Coelho. Foi nessa época ,também, que o conceito de ilustração se expande elevando o livro ao status de obra de arte orgânica que se utiliza de varias linguagens.




Nesse breve histórico foram usados dois artigos que você pode encontrar aqui em um, dois clique:
 Este da Laura Sandroni: http://contaumahistoria.com.br/?p=5139
E este da Ana Paula Abreu: http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/BaleianaRede/edicaon7/Revelacoes_que_a_escrita.pdf

E também a dissertação de Jose Augusto A. Nascimento disponível em:

file:///C:/Users/Sheyla/Downloads/JOSE_AUGUSTO_A_NASCIMENTO.pdf


Nenhum comentário:

Postar um comentário